Como escapar da internet morta
Segundo a teoria da internet morta, boa parte do que você vê online não é gente: são bots, fazendas de conteúdo, IA gerando texto e imagem em escala industrial, tudo embalado por algoritmos que empurram o que rende clique e não o que faz sentido
06.01.2026

A tal “Dead Internet Theory” surgiu em fóruns online e ganhou rótulo oficial: é a crença de que, desde mais ou menos 2016, a internet foi tomada por bots, contas artificiais e conteúdo gerado automaticamente. A parte conspiratória não se sustenta quando vamos aos dados, mas o incômodo que ela traduz é real: a percepção de que o mundo online está cada vez mais cheio de páginas vazias, informações redundantes, comentários genéricos, notícias recicladas e imagens esquisitas demais para terem vindo de alguém de carne e osso. Universidades e pesquisadores já tratam a teoria como sintoma de algo maior: a sensação de que a experiência humana na rede está sendo diluída por automação e conteúdo “paras algoritmos”.
Relatórios de segurança digital ajudam a entender o pano de fundo: estudos recentes apontam que algo entre 40% e 50% do tráfego da web hoje é feito por bots – muitos deles maliciosos, outros apenas automações “neutras”, mas, de todo modo, não humanos. Ao mesmo tempo, plataformas já admitem estar lutando contra uma enxurrada de sites e posts criados “para buscador”, repletos de texto gerado por IA, feito para ranquear, não para ser lido. Já em redes como TikTok, relatórios mostram contas automáticas de IA acumulando bilhões de views com vídeos fabricados, muitas vezes sem qualquer rótulo claro de que não há humanos por trás. Assim, é fácil entender por que tanta gente olha para o feed e pensa: “isso aqui está meio estranho”. Mas o problema é que vamos nos acostumando, né?
Mas, se a gente cruza isso com teoria da comunicação, a coisa fica ainda mais interessante. Debord falava da “sociedade do espetáculo” como um mundo em que tudo vira imagem e representação, até a própria vida. Já viu onde quero chegar né? Baudrillard depois empurrava o raciocínio para o território dos simulacros: signos que já não apontam para uma realidade, mas para outros signos, em um loop do inferno. A internet de bots + IA é quase um simulacro 2.0: posts feitos por máquinas, otimizados para agradar outras máquinas (algoritmos, crawlers, sistemas de recomendação), e nós, humanos, assistindo a esse diálogo entre robôs como convidados meio perdidos. A “internet morta”, nesse sentido, não é o fim da rede – é a rede rodando sem a gente.
Para as marcas, o risco é existencial: não é só “perder alcance”, é se comportar como mais um agente automático num ambiente saturado de conteúdo automático. Isso acontece quando a comunicação corporativa vira só derivado de trend, texto genérico de IA sem curadoria, visual igual ao de todo mundo, resposta padrão em comentário copiada e colada. A marca até posta todo dia, mas soa como bot: nunca erra, nunca hesita, nunca entra em nuance, nunca parece ter alguém de verdade do outro lado. É a morte simbólica: presença sem presença.
A boa notícia é que o antídoto para a internet morta não é nostalgia off-line, e sim radicalizar o que só humanos conseguem fazer bem como dar contexto, nuance, relação. Aqui na MonkeyBusiness, por exemplo, quando a gente roteiriza vídeos, animações e apresentações corporativas, a IA até pode entrar como ferramenta para rascunhar pautas, sugerir variações, organizar dados, por exemplo, para apresentações com centenas de slides. Mas a espinha dorsal é sempre uma voz autoral. E tem que ser. Quem é essa empresa, qual o conflito real que ela vive no mercado, quais contradições a gente vai admitir em vez de esconder. A partir daí, o roteiro é escrito pensando em gente: cenas que reconhecem o cotidiano, exemplos que não parecem genéricos, piadas com timing humano, não só frases “perfeitas” e estéreis.
No fim, escapar é provar, peça a peça, que existe vida ali por trás da sua comunicação corporativa: autoria assumida, interação real, histórias coerentes ao longo do tempo e até pequenos erros, mas com profundidade e diferenciação que só um humano pode dar. Num universo em que bots já são quase metade do tráfego e conteúdos gerados por máquina se multiplicam, a diferenciação não virá de postar mais, e sim de postar como quem está vivo. Para quem está vivo. A pergunta que fica, para qualquer marca, é brutal na simplicidade: se eu encontrar seu vídeo, seu texto ou sua animação daqui a um ano, vou reconhecer um traço de branding ali, ou vai parecer mais um ruído anônimo na paisagem da internet morta?
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