MUITO CONTEÚDO ESTÁ NOS DEIXANDO MAIS BURROS?
A cada nova plataforma — do Google ao TikTok — volta a profecia do empobrecimento cognitivo: informação demais, atenção de menos.
20.10.2025

A cada nova plataforma — do Google ao TikTok — volta a profecia do empobrecimento cognitivo: informação demais, atenção de menos. Mas essa ansiedade não nasceu com o feed infinito e o brain rot que faz parte da nossa vida hoje. No início do século XVI, a República de Veneza, então o maior polo gráfico da Europa, já regulava a imprensa com mão pesada, a princípio por temer desordem, erros, “más leituras” e o “emburrecimento do homem” (mesmo achando que exisitia uma tentativa de monopolizar os meios de produção por trás desse argumento bonitinho – mas isso é uma discussão). A história sugere que abundância informacional sempre foi uma ameaça ao desenvolvimento intelectual. Debate que enfrentamos hoje, mas que já preocupa há muito tempo.
Vamos partir do presente. Há evidências sólidas de que sobrecarga informacional e o bombardeio de interrupções no nosso dia-a-dia pioram decisões, aumentam estresse e derrubam desempenho. Revisões recentes ligam esse overload à exaustão, queda de produtividade e tomadas de decisão de pior qualidade, especialmente quando somado a interrupções constantes. Aquelas paradinhas que todos nós fazemos para uma escrolada marota atrapalha pode ser um problema. Pesquisas mostram que um tempo médio de 47 segundos antes de trocarmos de foco. Era 2,5 min em 2004. Isso drena recursos atencionais e incentiva o “trabalho picado”, matando o tempo de atenção necessário para tarefas ou estudos mais complexos.
Agora, falando do passado, Veneza prosperou com o Mercado de impressão no início do século XVI, e esse crescimento rápido os levou a buscar leis regulatórias: o Decreto de 1517 abriu essa série de leis para ordenar as bas práticas desse mercado que se abria; Mas veja que essas leis tinham a ideia de regular: em 1527, o Senado condicionou direitos de impressão à concessões da imprimatur; em 1545 e 1549, vieram registros de licenças e a Corporação de Impressores e Livreiros; Sem contar que não faltaram queimas públicas, com cerca de 1.400 livros só em 1548, quando a Inquisição romana apertou o cerco na regulação da informação.
O argumento principal era que essa abundância de livros e informações cada vez mais acessível (mesmo que essa acessibilidade ainda fosse, em grande medida, restrita) que o processo gráfico estava proporcionando poderia deixar o “homem mais burro”. Lógico que, atrás dessa bandeira, podemos notar um combo conhecido: medo de erro, de fraude, caos informacional pelo excesso de dados e uma falta de curadoria — o mesmo argumento emocional que hoje projeta na internet e nos meios de informação mais rápidos a culpa por essa confusão cognitiva. Mas podemos voltar mais no tempo! Ainda antes de Veneza, Sêneca já alertava: “a abundância de livros dispersa” — recomendando ler menos e melhor. É a tese clássica de gestão da atenção.
E, no nascer da tipografia, o abade Johannes Trithemius defendeu a manutenção das práticas de cópia manuscrita e disciplina intelectual frente à “revolução da impressão” — não para negar a tecnologia, mas para tentar domá-la. Assim, sempre que cresce o volume de informações, naturalmente buscamos ferramentas de controle e organização, gêneros e rotinas para lidar com o excesso (índices, resumos, curadorias, checagens e selos de autenticidade).
O paralelo, portanto, é mais institucional do que cognitivo. Na Veneza de 1500, a saída foram regras (licenças, catálogos, guildas) e novas técnicas editoriais. Na internet de 2025, a resposta passa por alfabetização informacional (como filtrar, citar, comparar), higiene atencional (janelas sem interrupção; lotes de mensagens; notificações sob demanda) e design de consumo (listas curadas, fontes auditáveis, limites para scrolls de alto atrito cognitivo). As plataformas amplificam ruído? Sim. Mas, como na República Sereníssima, normas e práticas podem ajudar a organizar a entropia.
Isso quer dizer que “o excesso de informação nos deixa mais burros”? Não necessariamente. Penso que nos emburrece é o mismatch entre volume e método. Talvez seja ai que tenhamos que nos preocupar mais. Quando não temos protocolos para selecionar, validar e aplicar o que vemos, a mente entra em modo defesa — cansa, cede ao atalho, espalha erro. Ou seja, quando sabemos como pesquisar e consumir essa informação, esse excesso pode virar repertório: mais amostras, melhores comparações, decisões mais responsáveis. A literatura recente é clara: sobrecarga sem gestão prejudica; gestão competente reduz danos e recupera performance.
A tese que assusta hoje assombrava tipógrafos e senadores em 1515. Mas vejo que não é a abundância que nos empobrece, é a falta de filtros e de métodos de como consumir. Cada era de comunicação produz suas ameaças… mas também suas ferramentas. Veneza não proibiu a impressão; organizou-a — e floresceu. Faremos o mesmo com buscas, feeds e IA: menos pânico, mais método. Talvez tenhamos que trocar “burro por excesso”, por sermos “mais sábios por escolha”.
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