O HOST BURRO QUE ADORAMOS ODIAR

Mas como esse host é burro!” Se você ouve podcasts brasileiros, já deve ter pensando essa frase ou até mesmo a gritado, como é o meu caso

Marco Franzolim

13.01.2026

O HOST BURRO QUE ADORAMOS ODIAR

O Brasil virou um país obcecado por podcasts, videocasts e os chamados de mesacasts, aqueles com uma galera conversando ao redor de uma mesa. Pesquisas recentes apontam o país entre os maiores mercados do mundo: dados do Spotify indicam aumento de 36% na produção de podcasts entre janeiro e setembro de 2023, com crescimento de 28% no consumo no mesmo período. Todos bebendo de nomes clássicos do formato como Joe Rogan, a explosão do formato de entrevistas e “mesacasts” trouxe também um padrão de bancada: um host principal, geralmente mais articulado, e um co-host que faz o papel de amigo leigo, o “cara da rua”, que pergunta “como assim?” sempre que o papo fica técnico demais. À primeira vista, é só alguém perdido. Mas, depois de muito tempo odiando esses personagens sórdidos do mundo do podcast nacional, comecei a penser que talvez, dramaturgicamente, é um dispositivo.

Na teoria de roteiro, esse papel tem nome: audience surrogate – o personagem que sabe tanto quanto o público e obriga o especialista a explicar o mundo em linguagem acessível. Podemos chama-lo também de “orelha”. Dr. Watson, nos contos de Sherlock Holmes, é o exemplo clássico: ele não é um gênio da dedução, mas é justamente quem pergunta, se espanta, duvida, reage como nós reagiríamos.Ou seja, a função dele não é brilhar intelectualmente, é abrir espaço para que o brilhantismo do outro seja compreendido. Dessa forma, o “host burro” de muitos podcasts acaba fazendo a mesma coisa: ele força o entrevistado e o host principal a voltarem, destrincharem siglas, traduzirem jargões, darem exemplos concretos. Não sei o quanto isso é estratégicamente planejado, mas acontece.

O problema é que há duas versões desse personagem. A boa versão é o host-ponte: ele entende o suficiente para saber onde o público médio vai travar e faz a pergunta “boba” com intenção, quase como um “explain like I’m five” ao vivo. Essa lógica está por trás de formatos que explicam temas complexos com perguntas simples de um interlocutor leigo, justamente para manter o papo acessível. A má versão é o host realmente despreparado (e muitas vezes embrigado), que não ouviu uma entrevista anterior, não pesquisou o convidado e reproduz a ignorância como estilo – não para ajudar a audiência, mas porque.. é o que tem pra hoje. Na tela, as duas coisas podem parecer iguais; na prática, o ouvinte sente a diferença no ritmo, na profundidade e no respeito.

Quando trazemos essa discussão para a comunicação profissional, o “host burro” vira uma ferramenta poderosa – se usada com consciência. Aqui na MonkeyBusiness, por exemplo, ao roteirizar vídeos, animações e apresentações corporativas, a gente frequentemente cria um personagem ou uma voz “curiosa” que representa quem está chegando naquele tema pela primeira vez: o colaborador que nunca ouviu falar daquele indicador, o cliente que não domina o jargão técnico. Em vez de despejar informação, colocamos essa voz para perguntar, duvidar, pedir exemplos. É a lógica do co-host ingênuo aplicada a um roteiro bem escrito, sem cair na caricatura do idiota.

No fundo, o incômodo com o “host burro” revela outra coisa: nossa pouca tolerância com a pergunta básica. Já parou pra pensar o quanto dói ter que voltar cognitivamente em assuntos que você já domina? Vivemos uma cultura que glorifica o especialista e humilha o leigo – mas, paradoxalmente, vende conteúdo educativo como nunca. Se todo mundo na mesa parece muito inteligente, o público menos iniciado se sente burro. Se existe alguém autorizado a não saber, a admitir que está perdido, o ouvinte ganha um lugar de pertencimento. Talvez o convite não seja acabar com o host burro, mas ressignificar esse papel: menos burrice performática, mais curiosidade radical. Assim, no podcast, no vídeo de marca ou na apresentação de conselho, a figura que “não sabe” pode ser justamente a que torna o conhecimento compartilhável. E essa técnica pode ser bastante relevante para o desenvolvimento do conteúdo em um veículo de comunicação. Ou, pelo menos, eu quero acreditar nisso… porque o host burro dos podcasts continua me tirando do sério.

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