Policarpo vs. Restelo: o pêndulo da inovação brasileira
Entre o ímpeto quixotesco de Policarpo Quaresma e o freio cauteloso do Velho do Restelo, saímos da evangelização empreendedora para o choque de pandemia e capital caro; agora se desenha um terceiro ato, menos glamoroso e mais transformador: resolver problemas concretos, aplicar IA à produtividade, medir impacto e converter criatividade em resultado. Se ontem aplaudíamos slogans, hoje premiamos entregas — e talvez aí esteja a boa notícia: equilibrar ambição e método para voltar a crescer.
07.10.2025

Desde pequeno, ouço que o Brasil é o país do futuro. Acredito que você também. Por volta de 2010, eu pensei que estávamos nesse caminho à todo vapor. Parecia que havíamos encontrado nossa vocação de país-startup. Era o auge dos TEDx por aqui, dos meetups lotados, das primeiras aceleradoras, incubadoras e dos editais públicos para “tracionar” ideias. Em 2012, também vendo esse potencial, o governo lança o Start-Up Brasil, colocando dinheiro e foco no sonho de se criar um ecossistema de inovação nacional. O clima era de “vamos aprender, errar rápido e crescer juntos”. E era muito empolgante.
Esse momento me foi muito marcante, porque ocorreu logo depois da criação da MonkeyBusiness, minha empresa especializada em apresentações profissionais. Lembro vividamente de um momento de empolgação coletiva, em que grandes ideias para startups, soluções inovadoras, revoluções sociais e todo tipo de debate se davam diariamente de forma presencial e digital. Eventos como TEDx, Day1 e Pecha Kucha aconteciam semanalmente, todos com suas lotações máximas. Um ponto de ebulição das ideias, que eu confesso que sinto muita saudade.
Esse momento entregou marcos que alimentaram essa confiança. A 99 é adquirida pela Didi com valuation de US$ 1 bilhão, consolidando-se como o primeiro “unicórnio” do país e coroando sensação de que “o país do futuro estava chegando”. Tivemos o aporte de de US$ 5 bilhões da SoftBank para um fundo dedicado à América Latina, injetando combustível nesse promissor ecossistema que já se acelerava. O recado: capital abundante para quem souber escalar. Sabe aquela ideia disruptiva que você viu num TEDx e começou a modelar para a sua solução? Esse era o seu momento!
Lembro que, por mais de 10 anos, minha agenda estava lotada. E da MonkeyBusiness também. Além das convenções e eventos corporativas, às noites e finais de semana estávamos envolvidos em eventos de sucesso como o Endeavor Day1, Pecha Kuchas e TEDx pelo Brasil inteiro. Chegamos a patrocinar e criar apresentações para mais de 60 TEDx no Brasil e em Portugal, e até a produzir os nossos, com uma disputa de cerca de 17 pessoas por cada vaga para assiti-los. Tivemos até que começar a escolher melhor essas oportunidades, pois não havia tempo para tantos.
Assistíamos ao “A Rede Social”, onde David Fincher junto com Sorkin nos provavam que até as ideias mais ousadas e recheadas de dificuldade tinham grandes chances. O conhecido “empreendedorismo de palco” ganhou força. Donos de empresas viraram celebridades, programas de TV falavam de inovação, aporte, ROI. Assinávamos a plataforma do Masterclass para aprender com os grandes e toda pesquisa passava pelo site do TEDx.
E por aqui, o nosso trabalho de dar forma criativa às ideias estava muito aquecido. Nós montávamos apresentações para os mais variados empresários, diretores, CEOs e aspirantes contarem suas histórias, de como venceram as adversidades, erraram, aprenderam, como pensaram nos seus métodos inovadores em sequência. E esse fogo também chegou dentro das grandes empresas, que nos chamavam para montarmos seus eventos internos voltados às grandes ideias. Dos pitchs inovadores, eventos de inovação, TEDx corporativos, tudo voltado para alimentar essa fome de se superar.
Até que me parece que fomos tocados pelas mãos cínicas do Velho do Restelo, de Luís de Camões, que com sua voz do ceticismo à beira do Tejo, adverte os heróis lusitanos contra a ganância das grandes empreitadas, teme o custo humano e suspeita das glórias fáceis. Minha impressão pessoal é que não foi um estalo único, mas um esfriamento paulatino que se iniciou por volta de 2018 até se chocar com o Iceberg da Pandemia. Entre 2020 e 2024, todo esse entusiasmo deu lugar a custos financeiros mais pesados, com a Selic a 13,75% em 2022, por exemplo, levando-se à uma revisão de proiridades, secagem do capital de risco e mais cobrança pelo lucro. Na ponta da demanda, os próprios públicos ficaram mais desconfiados e seletivos.
O resultado cotidiano foi e é perceptível: trocamos lemas do momento como o “seja sua melhor versão” e o famoso “Vai lá e Faz!” pelo ceticismo prático e uma natural apatia. Entramos no modo “mas eu não queria mesmo”. No marketing, a régua ficou mais dura. Na inovação, portfolios encolheram, P&D foi priorizado onde há ROI defensável com números e IA aplicada a eficiência virou a tese dominante. O ceticismo e o pragmatismo receoso do Velho do Restelo matou aquela euforia, que talvez tenha sido um pouco ingênua, como o ufanismo de Policarpo Quaresma.
Isso significa que desistimos de aprender e crescer? Penso que não. Talvez signifique que crescer é um cliclo e que estamos agora em outra fase. Quero acreditar que vivemos um primeiro ato, de cerca de 2010 a 2018 que seria de uma evangelização: cultura do empreendedorismo de palco, networking, TEDx, hubs e aceleradoras. O segundo ato (2020–2024) foi de uma dura prova de realidade — pandemia, choque macro, juros — e de seleção natural de modelos e ideias. Aquelas mesmas que nós apresentávamos em eventos criativos, discutíamos nas redes e líamos nos livros de oportunidade dos gurus do mercado, que pareciam lindas no papel ou em cima de um tapete vermelho redondo, mas que não haviam sido provadas.
E esse duelo do pensamento quixotesco de Policarpo com o discurso cuidadoso do Velho do Restelo está nos levando ao terceiro ato, que começa a se desenhar: o da efetiva solução de problemas profundos e muito mais complexos. Menos glamorosos com certeza, porém mais transformadores e aderentes a necessidades reais de Mercados, empresas e pessoas. Mas há também uma dimensão cultural nessa virada. A mesma sociedade que lotava auditórios para “talks inspiracionais” hoje evita ruído. Estamos mais céticos e cansados de promessas fáceis e debates performáticos (temos que concordar que grande parte dessas grandes ideias apresentadas e aclamadas nesse primeiro ato não são nada práticas). Não acho que é necessariamente niilismo; pode ser o senso de parcimônia ouvido às margens do rio Tejo batendo na porta, uma vez que a euforia passou.
Para o mercado, o recado é claro: menos storytelling e mais entrega real mensurável. Para as empresas, a vantagem competitiva deixou de ser “parecer inovadora” e passou a ser reduzir custo, aumentar conversão, ganhar tempo, melhorar experiência na prática. Ou seja, há 10 anos atrás, Policarpo Quaresma poderia propor trocar a língua do Brasil pelo Tupi que seria aplaudido. Hoje, precisaria provar a eficácia dessa troca, como implementá-la e seus resultados.
Não acho que o embate entre o Velho do Restelo e Policarpo Quaresma tenha um vencedor. Vejo que, assim como um pêndulo, iniciamos essa jornada do lado da ingenuidade e positividade, voltamos ao oposto do ceticismo completo, mas vamos nos estabilizar no centro. Ou seja, esse repertório construído nos últimos 15 anos não se perdeu. Aprendemos a formar times, acessar capital, vender para o mundo e operar com tecnologia. Aprendemos a sermos menos eufóricos e a somar o pragmatismo à criatividade pura e simples. O humor social pode estar mais sóbrio, mas quero acreditar que a próxima oportunidade que se desenha é adulta: transformar criatividade em produtividade, empresas em resultados e as histórias auto-engrandecedoras de palco em problemas resolvidos. Se o primeiro ciclo nos ensinou a sonhar, o próximo convida a entregar — e é aí que eu descanso a minha esperança.
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