QUANDO O MANIFESTO NÃO MANIFESTA

Toda empresa quer um vídeo manifesto até chegar a hora de manifestar alguma coisa de verdade. Porque, no fundo, o mercado se apaixonou pela estética da convicção, mas continua com medo da consequência de ter uma

Marco Franzolim

24.03.2026

QUANDO O MANIFESTO NÃO MANIFESTA

O Mercado audiovisual corporativo tem momentos. E, meu amigo, quando o momento chega, todas as empresas correm para não ficar por fora. E o Vídeo Manifesto vive o seu momento de glórias, perseguido por empresas ansiosas que querem parecer relevantes. Assim, o modelo de trilha crescente, locução grave, imagens aéreas, gente diversa (e quanto mais diversa, melhor) sorrindo, palavras como “transformação”, “propósito”, “futuro” e “impacto”. Tudo muito bonito. Tudo muito inflado. E, em muitas vezes, tudo muito vazio. Porque manifesto não é o que uma marca gostaria de parecer; manifesto é o que ela sustenta quando a conveniência acaba. E, antes de se produzir um vídeo manifesto, sua empresa precisa saber sobre o que se manifesta. E, nessa correria para lançar rápido o seu vídeo manifesto, ninguém tem tempo para realmente entender o que quer defender.

Aqui na MonkeyBusiness percebo que, durante algum tempo, ter um vídeo manifesto passou a funcionar como selo simbólico de maturidade da marca. Era como se toda empresa precisasse provar que não vende apenas produto, mas uma visão de mundo. O problema é que, na pressa de parecer profunda, muita marca pulou a etapa mais importante: desenvolver uma profundidade real. E o resultado é cômico: o vídeo manifesto, que deveria ser um gesto de posicionamento, virou uma peça de decoração estratégica. Um trailer de grandeza para empresas que, no fundo, repetem platitudes óbvias, e não dizem nada.

E aqui está o paradoxo interessante: sabemos que a pressão de se posicionar como marca realmente existe. Pesquisas indicam que o público confia mais nas marcas que se colocam em relação a temas sensíveis da sociedade do que em instituições tradicionais, e esperam delas não só performance, mas alguma forma de segurança, coerência e orientação. Só que essa demanda não absolve a superficialidade; ao contrário, ela a expõe. Assim quando a marca fala sem dizer nada, o público percebe. E percebe mais rápido do que antes. A confiança cresceu, mas a tolerância ao discurso genérico encolheu. Muito porque o genérico virou padrão no mundo dos vídeos manifesto.

Nesse sentido, um vídeo manifesto de verdade não nasce de um brainstorming de palavras inspiradoras. Nasce de conflito diário e das experiências reais vividas e percebidas pela empresa. O que essa empresa defende que outras evitam defender? O que ela topa bancar, inclusive quando isso custa alguma coisa? Que prática concreta sustenta sua retórica? Perceba que, sem tensão, não há manifesto. E minha experiência diz que o que mais assustam os executivos das empresas é citar conflitos. Assim, nesse mundo corporativo paralelo onde não existem problemas, sobra apenas narração institucional com fotografia bonita e locução emocionante. Então lembre-se que um vídeo manifesto precisa ter coluna vertebral. Precisa ter recorte. Precisa correr o risco de desagradar alguém. Porque toda visão de mundo que agrada todo mundo, na verdade, não mudou o mundo de ninguém.

É exatamente por isso que, na MonkeyBusiness, quando pensamos apresentações, vídeos e animações corporativas, o ponto de partida nunca deveria ser “como soar grandioso”, mas “o que de fato merece ser dito”. Motion design, direção, trilha e montagem podem amplificar uma convicção; o que eles não fazem é fabricar convicção do zero. Nós trabalhamos criando audiovisual corporativo desde 2009 e projetos para mais de 2 mil empresas, a experiência ensina uma coisa simples: linguagem audiovisual potencializa clareza, mas também denuncia vazio. Então, quando a ideia não para em pé, a estética, mesmo que linda, só ilumina a fragilidade e não ajuda sua marca.

Por isso, talvez a pergunta mais honesta nem seja “vale a pena fazer um vídeo manifesto?”. A pergunta correta é mais desconfortável: “temos, de fato, algo que mereça ser manifestado?”. Porque, se a resposta for não, tudo bem. Faça um bom vídeo institucional. Faça um bom case. Faça um bom filme de marca. Mas não chame de manifesto aquilo que é apenas fumaça com trilha épica. No fim, um manifesto não serve para a empresa parecer viva. Serve para provar que ela tem pulso.

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