quem acredita em ia?
Uma cena editorial abstrata e provocativa sobre perda de confiança em conteúdos de IA: uma grande tela digital exibindo uma imagem hiper-realista perfeita demais, com rostos artificiais, luz plástica e detalhes levemente distorcidos, enquanto uma pessoa observa desconfiada à distância
23.06.2026

Durante muito tempo na comunicação, uma boa imagem foi atalho para a credibilidade. Aquela frase que víamos no Twitter de “sem foto, não aconteceu” era verdadeira: uma cena provava acontecimento. Mas a IA generativa quebrou esse contrato silencioso entre imagem e realidade. O problema não é apenas ela conseguir criar um Papa de casaco fashion, uma guerra que nunca aconteceu ou um executivo sorrindo para uma equipe que não existe. O problema é que ela barateou a aparência da verdade. Mais ainda: eu diria que ela banalizou a imagem para a comunicação corporativa. E quando a aparência da verdade se torna barata demais, a própria verdade começa a perder valor de mercado. O Digital News Report 2025, do Reuters Institute, aponta justamente esse ambiente de baixa confiança, em que desinformação, IA generativa e fontes não tradicionais de notícia embaralham a percepção pública sobre o que é confiável.
No início, eu via essas imagens geradas por IA como mais uma linguagem visual. Depois, comecei a perceber o padrão de montagem, não apenas nas fotos, mas principalmente nas ilustrações feitas por IA. Hoje, de longe eu já noto o que é IA e o que foi criado por um ser humano. Algo parecido já aconteceu com outros mercados criativos. O banco de imagem banalizou a fotografia corporativa. O template banalizou o design. O stock music banalizou a trilha. O PowerPoint mal usado banalizou a apresentação. A IA, quando usada sem repertório, sem direção e sem autoria, está banalizando a própria percepção de realidade e afundando campanhas de publicidade que tem muita cara de IA.
Hoje, preciso confessar que se vejo uma campanha com ilustrações em IA, daquelas mais aplicadas e divulgadas por todo tipo de usuário, eu não consigo mais confiar naquela peça de comunicação. Pode ter sido criada por uma grande empresa, um profissional de renome, um autor conhecido. Se foi feita em IA, eu não consigo acreditar no conteúdo. E acredito que isso aconteça porque já vi muito conteúdo ruim, tendencioso, mal-feito e até mentiroso utilizando essa estética. E isso gerou um certo preconceito para mim onde desconfio de toda imagem criada por IA.
E essa desconfiança saiu da imagem e chegou ao texto. Hoje, também começo a reconhecer o cheiro do texto feito por IA. Demorou mais, mas lendo mais e mais textos e artigos na internet, comecei a notar padrões: introduções simétricas, conclusões edificantes demais, frases que inciam com “o que não é”, para concluir com “o que é”, repertório amplo mas mal aplicado, opinião banal e óbvia, metáforas e fuguras de linguagem simples demais. Pesquisando mais sobre essa percepção, vi que uma pesquisa do Stanford AI Index 2025 mostra que o uso corporativo de IA cresceu fortemente, sendo que 78% das organizações relataram usar IA em 2024, o que ajuda a explicar por que essa textura sintética passou a ocupar tantos espaços de comunicação ao mesmo tempo, banalizando a estética não apenas visual como narrativa.
Assim, o meu ponto central com esse artigo não é ser contra IA, porque seria ingênuo da minha parte. É óbvio (olhaí a obviedade que eu venho falando) que a IA é uma das ferramentas criativas mais poderosas já colocadas nas mãos de profissionais de comunicação. O ponto é que ferramenta vem sendo usada por todos, da mesma forma, com o mesmo visual e sem customização. É como se fosse um carimbo que está nas mãos de todos, e que repetido à exaustão, não constrói confiança. Aqui no trabalho da MonkeyBusiness, em apresentações, vídeos e animações corporativas, buscamos aplicar a tecnologia sempre a serviço de narrativa, clareza e intenção, sempre customizando ao máximo, e usando a IA para resolver detalhes, que serão compostos numa criação complexa, desenvolvida por um ser humano. Isso porque temos quase 20 anos de reputação, com mais de 2 mil grandes clientes atendidos, e eles buscam criação feita com humanos. Não 100%, algo de IA é sempre bem vindo. Mas tem que compor uma criação maior, ser regida por um método e entregar customização.
Porque uma apresentação profissional não precisa apenas “parecer moderna”, ela precisa defender uma ideia de forma criativa, consistente e feita sob medida, buscando diferenciação. Ao mesmo tempo que um vídeo corporativo não precisa apenas “ficar bonito” e uma animação não precisa apenas “ter movimento” se não mover alguém de forma deliberada e inteligente. A diferença entre usar IA e ser usado por ela está na autoria e na quantidade de uso delas nas peças. Uma coisa é criar um elemento visual específico na IA e utiliza-lo em um detalhe de uma cena, outra é ter a cena toda criada em IA.
Para finalizar, as vezes penso que talvez estejamos entrando na era do “desconto automático da credibilidade”. Como abri o texto, antes, uma imagem bonita e profissional abria portas para marcas e empresas. Agora,dependendo da estética, ela fecha essas portas, sem mesmo ter dado a chance do público experimenta-la. Ao mesmo tempo que antes, um texto bem organizado gerava autoridade. Agora, dependendo do polimento, ele denuncia ausência humana e um padrão despretensioso. Dessa forma, é o paradoxo da inteligência artificial: quanto mais perfeita ela parece, mais pessoas utilizam da mesma forma, mais banalizada ela fica e mais suspeita ela se torna.
Concluindo, o futuro da comunicação não será vencido por quem produzir mais rápido, mas por quem conseguir provar origem, intenção, ponto de vista e presença humana. Porque, num mundo em que qualquer um pode fabricar uma imagem, um texto, uma voz e até uma reputação, a nova criatividade não será apenas criar. Será fazer acreditar (e essa frase final eu fiz copiando a estética dos textos criados por IA, seguindo a estrutura de “não é isso, é aquilo”. Percebeu?
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