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Patrícia Marins

Patrícia Marins é apaixonada pela comunicação verdadeira e transformadora. Sócia-fundadora da Oficina Consultoria e sócia do Grupo In Press, também é cofundadora do Women on Board, diretora da Associação Brasileira das Agências de Comunicação (Abracom), embaixadora do SheInc e conselheira do MeToo Brasil, do Congresso em Foco e do Movimento Expansão.

Uma postagem no X (antigo Twitter), uma foto no Instagram, um vídeo no TikTok… Por muito pouco, como um comentário de duas ou três linhas ou uma única palavra, lá se vai a reputação por água abaixo em questão de segundos. No “tribunal de opinião” das redes sociais, um deslize pode virar um crime público. E assim vamos surfando uma onda interminável, o tempo todo nos equilibrando entre a liberdade de poder expor opiniões autênticas e o risco de cair na armadilha do cancelamento.

Uma das maiores influenciadoras do país, a CEO e fundadora da @gebeauty, Camila Coutinho, em seu painel no Web Summit Rio da semana passada, disse que não acredita em cancelamento: “De todos que foram cancelados um dia, ninguém foi cancelado mesmo. Está todo mundo aí, bombando”. Para a empresária, sabendo que cada indivíduo pode fazer besteira, o que se tem a fazer é pensar em como atravessar o túnel da rejeição, que pode ser mais longo ou mais curto.

Quando entrevistei a desembargadora Andréa Pachá, para o meu livro “Muito além do Media Training: o porta-voz na era da hiperconexão”, ela me disse uma frase que não esqueci, ficou registrada: “A perda do direito de esquecimento”.  Segundo ela, “a rede traz para o presente coisas que em algum momento você queria que ficassem esquecidas”.

Falhas, crises e declarações polêmicas feitas há anos, por exemplo, passam a ter a sobrevivência para além do momento em que foram registradas e podem ser trazidas para o presente em questão de cliques, como se um dia sequer tivesse transcorrido. Essa perda ao direito ao esquecimento garante que quaisquer erros cometidos hoje sejam evocados por um futuro indeterminado, em um verdadeiro dossiê digital de tamanho inesgotável e instantaneidade garantida.

Registrei no meu livro um alerta dado por Andréa Pachá: “Antes de qualquer prova, antes de qualquer processo, a pessoa já está condenada ou absolvida. Pode-se, ao final, chegar à conclusão de que aquilo foi um grande equívoco, mas agora já está sentenciada e está na rede”. E “se colocou na rede, é eternidade”.

Numa sociedade tão hiperconectada, é preciso ter em mente que uns vão aplaudir e outros vão condenar qualquer exposição. A questão é saber falar com essa segunda parcela.

A influenciadora Camila Coutinho está certa quando diz que qualquer um pode errar. Mas temos que ser cientistas de narrativas, arquitetos de nossas próprias histórias  e conscientes de que cada interação online molda nossa identidade digital e impacta vidas alheias, marcas e instituições. Veja o vídeo de Camila Coutinho aqui:

É possível prevenir cancelamentos. Uma das premissas é ser crítico e reflexivo sobre o que postar ou compartilhar. É útil? Como é que isso vai soar para o outro? E, claro, tem que entender o critério do cancelamento. Perder seguidores não é ser cancelado.

Uma vez o estrago feito, a pior reação é negar a crise. Com ajuda de especialistas da comunicação, é hora de responder de forma ágil e assertiva. Ser evasivo pode só aumentar o dano. Basta lembrar o que aconteceu com o ator norte-americano Will Smith, que deu um tapa em Chris Rock na cerimônia do Oscar, depois discursou sem citar o humorista ou condenar a violência. Foi preciso um texto mais direto nas redes — e, mesmo assim, ele foi punido pela Academia.

Pedir desculpas imediatamente pelo erro, deixar a poeira baixar, manter a coerência e buscar reposicionamento são caminhos para se recompor ao atravessar uma gafe ou crise digital.

Não é só de disputas que vivem os perfis de usuários nas redes. As mídias sociais são espaços nos quais é possível interagir de maneira generosa, encurtar distâncias e criar vínculos.

*Patrícia Marins é gestora de crises de alto risco reputacional, sócia-fundadora da Oficina Consultoria (www.oficina.ci), sócia do Grupo In Press, cofundadora do WOB (Women on Board) e autora do livro “Muito além do media training, o porta-voz na era da hiperconexão”.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do veículo/ Foto de capa: eternalcreative/ iStock

 

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