Crianças

Truth and Tales: Jogo infantil aposta no audiovisual para contar histórias

A Luiza Guerreiro, CEO do Truth and Tales, e a Nina Pinho, diretora de arte, nos contaram sobre como o jogo ajuda na formação das crianças

O Truth and Tales é um aplicativo interativo de contação de histórias voltado para crianças, que busca desenvolver as capacidades socio-emocionais e estimular os sentidos dos pequenos. Por meio de sons, diálogos, narração, ilustrações que acompanham a trajetória dos personagens, o jogo promove diversão, aprendizado e contribui para o sono das crianças.

Enquanto outros jogos muito utilizados pelas crianças possuem cores vibrantes e sons que estimulam o estresse, o Truth and Tales tem visual harmônico, com cores suaves e que busca se assemelhar às ilustrações de livros infantis. Confira a nossa entrevista com a Luiza Guerreiro, CEO, e a Nina Pinho, Diretora de Arte do Truth and Tales.

ADNEWS: De onde partiu a ideia do app?

TRUTH AND TALES: Veio de uma vontade de ter um projeto que focasse no bem-estar infantil, trazendo a arte de contar histórias através das memórias de infância de alguns membros da equipe. A vontade era de unir tecnologia com histórias milenares, de modo que as crianças pudessem ter um momento de conexão com elas mesmas.

AD: Qual foi o processo de produção das histórias?

T&T: Primeiro fomos atrás de alguns contos específicos chamados Teaching Stories, que fizeram parte de uma pesquisa de Stanford. Depois adaptamos essas histórias milenares e criamos um roteiro rimado. Optamos pelas rimas por causa dos benefícios que elas trazem para o aprendizado fonológico, e para conectar com a poesia e música, algo que sabemos ajuda no desenvolvimento atencional. Seguido disso vem o processo de storyboard, game design e testes de mecânicas e inovações. Fazemos testes com as crianças para validar as mecânicas e o design. Quando os pequenos validam, passamos para a parte de desenvolvimento e animação. Testamos novamente com as crianças quando temos uma versão jogável completa, para pegar bugs, e melhorias, e então passamos para a fase de polimentos.

AD: Como definiram quais seriam as interações que poderiam ser feitas dentro da história?

T&T: As interações foram pensadas seguindo o tripé: conexão com a história, conexão com o mundo real e treino atencional. Por exemplo, temos a realidade aumentada que faz a criança interagir com o mundo à sua volta. Isso a ajuda a movimentar o pescoço e rever sua postura. Temos uma parte que a criança interage com o microfone, assoprando ou rugindo como um leão. Dessa forma, ela participa da história e vira agente narrativo.

Em outro momento, a colocamos em um mini jogo musical, a distraindo da história no mesmo momento em que a personagem se distrai; e a criança pode entender, por ela mesma, como ela se distrai, como funciona sua atenção, e que existe uma intencionalidade atencional.

AD: A narração dos textos é um recurso para que as crianças possam ler sozinhas?

T&T: Sim. Colocamos o sistema de read along para auxiliar na prática da leitura, mas a criança também pode desligar a narração e ler por ela mesma se quiser. As fontes todas usadas são pró-dislexia.

Temos os benefícios da rimas que, pela sua previsibilidade, incentiva um maior envolvimento das crianças com novas palavras e torna o aprendizado mais fácil. Além disso, a rima é um dos primeiros sinais de consciência fonológica.

AD: Quais as técnicas utilizadas para ajudar o sono das crianças?  

T&T: As telas emitem luz azul, que altera a produção de melatonina, hormônio do sono, no nosso organismo. Utilizar telas durante muito tempo ao longo do dia, ou utilizar à noite podem prejudicar o nosso sono. Por isso, adicionamos um filtro de luz azul no app que é ativado à noite, para deixar as crianças menos expostas à luz azul.

Além do filtro, também optamos pelos audiobooks, onde a criança pode só escutar as histórias sem que a luz das telas atrapalhe o ritmo natural do sono. Isso também ajuda os pais a criarem rituais antes de dormir com as crianças.

AD: Como é concebido o visual das histórias?

T&T: O aspecto visual do Truth and Tales foi trabalhado com muito carinho por uma equipe super detalhista. A arte foi inspirada em clássicos que encanta tanto os pequenos quanto os adultos. As cores, texturas e formas são pensadas para trazer equilíbrio para as crianças, para que elas se sintam bem enquanto se divertem com as histórias. Tivemos bastante cuidado com a questão das imagens para elas serem bem harmônicas e trazerem um aconchego pra criança na hora em que ela estiver lendo e assistindo à história.

A paleta de cores escolhida para o Truth and Tales é um pouco mais suave, bem diferente das cores mais vibrantes e gritantes que vem sendo usado hoje em dia em conteúdos infantis, justamente porque essas cores que são muito saturadas elas acabam estressando demais a criança.

Fizemos alguns estudos e decidimos optar por personagens que não fossem “irreais”, ou seja, que tivessem a proporção do corpo mais próxima da realidade possível, mesmo sendo bem estilizado e cartunizado. 

AD: Quais elementos da criação audiovisual voltada para crianças se diferenciam das produções para outras faixas etárias?

T&T: Acho que, principalmente, o cuidado que tem que ser tomado durante a criação para que o conteúdo narrativo e a linguagem atinjam os objetivos. No nosso processo, durante os testes, muitas vezes notamos que as crianças assimilam e percebem as coisas de forma diferente de um adulto.

Além dessa adequação de linguagem, temos o cuidado também de deixar que as crianças pensem por elas mesmas, sem moral na história, sem uma resposta única. Também é importante que as mecânicas dos jogos não incentivem ao uso descontrolado e excessivo.

Outro fator que diferencia é o uso das mecânicas. No Truth and Tales, não utilizamos mecânicas de vício, que são “veja um anúncio e ganhe uma vida”, de loot boxes, e até mesmo de perder vidas. O app também não tem nenhum tipo de anúncio, já que não queremos incentivar o consumo em crianças e que crianças só conseguem entender o que é uma propaganda por volta dos 8 anos de idade. Antes disso, elas consomem como se fosse um conteúdo normal de entretenimento.

AD: De que modo o jogo desenvolve as habilidades socio-emocionais das crianças? 

T&T: Existem alguns contos orientais que foram criados com alguns elementos permitindo que a intenção real sobreviva e toque muitas pessoas através das gerações. São as teaching stories.

As teaching stories não trazem moral da história nem repetição de padrões já conhecidos e naturalizados pelas pessoas – característica esta que muitas histórias folclóricas repetem. Este tipo de história utiliza certas palavras e eventos que, organizadas de tal maneira, atuam no cérebro de forma diferente.

Os modos surpreendentes com que os personagens das teaching stories conseguem solucionar um problema incentivam o cérebro a ampliar e perceber novas possibilidades, atuando diretamente no desenvolvimento cognitivo.

Como as teaching stories não fazem parte dos padrões de associações comportamentais, as crianças conseguem desenvolver mais flexibilidade na hora de solucionar problemas e lidar com situações em que não estão acostumadas a viver. Se as crianças tiverem contato com as teaching stories, elas poderão se tornar adultos mais preparados para o inesperado e mais perceptíveis em relação à inteligência emocional e a si mesmas.

A eficácia das teaching stories no cérebro das pessoas está baseada em estudos. Um dos pesquisadores sobre o assunto foi o psicólogo e autor Robert Ornstein.

AD: Como a narrativa audiovisual do jogo foi desenvolvida?

T&T: A narrativa é adaptada para manter seu sentido original, porém com uma linguagem irreverente e divertida. Para isso pesquisamos termos e nomes dos personagens em sua origem para tentar manter os símbolos mais sutis que estão contidos nas histórias. A narrativa é a estrutura principal da onde as interatividades surgiram, então tivemos muito cuidado para que elas não fossem dissonantes da narrativa, para isso, trabalhamos primeiramente com estrutura de atos e depois em cenas e por vim em pares de rimas.

AD: Os recursos visuais e sonoros contribuem para o desenvolvimento dos sentidos de crianças na primeira infância?

T&T: As crianças estão hoje em dia em um contexto super povoado de estímulos, não faltam telas, imagens e sons para estimulá-las. Entretanto, os momentos de calma e de baixa ou nenhuma estimulação são cada vez mais raros. Buscamos no app evitar uma sobrecarga de estimulação e  utilizamos e formas mais naturais. Na infância a percepção de harmonia  é super importante então tentamos criar um ambiente calmo e harmônico.

No desenho de som as trilhas são todas originais e instrumentais, seguimos a mesma premissa porém com o cuidado da música e trilha sonora acompanharem a narrativa.  Incluímos instrumentos das culturas onde esses contos são originários ampliando o repertório sonoro das crianças. Buscamos ter músicas atemporais.

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