Uma pergunta difícil: Você tem ideia do faturamento anual no setor global de música gravada? Você tem noção do quanto o streaming de música cresceu após o início da pandemia da COVID-19? Pois é, por isso a Associação Brasileira de Música Independente deu o primeiro passo em sua pesquisa para nortear e analisar o mercado brasileiro de música independente e alguns desses fatos aparecem nesta nova pesquisa. 

A ideia da ABMI é que com o estudo alguns dados sobre a participação da música independente no market share nacional, os números de empregos gerados pelo próprio setor, diversas questões sobre identidade e diversidade de gênero, os lançamentos e as tendências de mercado, fiquem bem claros para todos os públicos! A pesquisa coletará dados e informações em um período de dois meses e conta com a ajuda de algumas frentes para uma melhor ilustração, com uma avaliação de dados sobre as plataformas de streaming, e entrevistas com cerca de 80 empresas, dentre elas, 70 fazem parte da associação. 

Nós conversamos com Carlos Mills, presidente da ABMI, para entender melhor sobre os insights dessa pesquisa, as expectativas relacionadas ao setor de música independente e um pouco mais sobre o processo de coletas dos dados. Além disso, Carlos aborda a orientação e o interesse das políticas públicas e nos mostra um case interessante sobre sua relação com o ‘boom’ nas plataformas de streaming. Confira a entrevista: 

 

ADNEWS – Qual é a importância de estudos que visam o setor da música independente nacional? Qual é a necessidade dessas pesquisas para o público? E para a ABMI?
Carlos Mills: Este estudo pioneiro pretende mapear a música independente gravada pela primeira vez no Brasil. Já sabemos que no Brasil se consome muita música local (um dos maiores consumos locais do mundo), mas quanto qual a fatia produzida diretamente pelas gravadoras e artistas brasileiros? Essa é um das perguntas que pretendemos responder. Para o público em geral, a existência de uma cena independente forte é a garantia de diversidade e da preservação do nosso patrimônio cultural. Para a ABMI especificamente, a pesquisa vai ser um “raio x” da instituição; pela primeira vez vamos mensurar indicadores como o tamanho do catálogo coletivo, fonográfico e editorial de nossos associados.

 

AD – Foi visível a diferença no setor antes e depois do início da pandemia?
Mills: O setor de música gravada não foi muito severamente afetado pela pandemia em termos econômicos. A quantidade de assinaturas nas plataformas de streaming (Apple Music, Spotify, Deezer, YouTube Music, etc) continua crescendo consistentemente. Mas certamente houve alterações em relação ao comportamento dos ouvintes. Enquanto gêneros como “música clássica”, “músicas para relaxamento” e “música infantil” tiveram aumento de consumo, outros gêneros como “Rap” e “Rock” experimentaram uma flutuação negativa.Mas um fator que não pode deixar de ser apontado é que, na área de shows ao vivo e estúdios de gravação, por exemplo, os efeitos da pandemia estão sendo devastadores. Neste sentido, a recente aprovação da Lei Aldir Blanc vem em boa hora, mas é preciso monitorar para que estes importantes setores possam sair da crise preservando a renda e os empregos que geram.

 

AD – Como é possível explicar o aumento da música gravada durante o isolamento social?
Mills: Assim como aconteceu com as plataformas de vídeo, podcasts e com os audiolivros, as pessoas recorrem ao consumo cultural para amenizar os efeitos do stress e do distanciamento social forçado. Creio que essa é uma boa explicação para o fenômeno e para o interesse pela assinatura das plataformas de streaming de música, mesmo durante a pandemia.

 

AD – Qual é a expectativa do setor de música independente para os próximos anos? A pandemia trará alguns reflexos?
Mills: Todas as análises econômicas apontam para um crescimento sustentado para música gravada para os próximos anos. Apenas um colapso econômico de proporções gigantescas, que esperamos que não ocorra, poderia alterar esta tendência.

 

AD – Quais são as metas e melhorias indicadas para políticas públicas, por exemplo? O que está insatisfatório para o setor e o que é possível melhorar?
Mills: De posse de informações objetivas como número de empregos gerados, faturamento e diversidade, poderemos mensurar a relevância deste setor criativo para a economia brasileira. A falta de políticas públicas consistentes são um dos problemas que afeta a cultura como um todo. Uma das lacunas é, por exemplo, a falta de uma política consistente para a exportação da música brasileira. Nossa música é um dos ativos mais valorizados do país em nível internacional; portanto deveria estar gerando muito mais divisas se estivesse sendo trabalhada em nível de políticas públicas com a seriedade que o assunto merece, como já acontece com o agronegócio, por exemplo.

 

AD – Agora, em relação aos conteúdos propostos nas plataformas de streaming. Como foi a relação entre a Associação e empresas (Spotify, Apple, YouTube e Google) para extrair dados das plataformas?
Mills: As plataformas de streaming tratam suas informações de consumo e faturamento de maneira muito reservada. Para conseguirmos os dados, recorremos a empresas especializadas que extraem essas informações por meios indiretos, mas com grande confiabilidade e reconhecimento internacional.

 

AD – Como será feita a divulgação desses dados?
Mills: Os dados serão divulgados em um relatório consolidado, físico e virtual, que vai mostrar também alguns estudos de caso que consideramos interessantes para ilustrar o universo independente. 

 

AD – Após o ‘boom’ do streaming, qual foi a importância e a facilidade para músicos independentes propagarem seus conteúdos? O quanto isso é favorável?
Mills: Aqui tenho uma experiência pessoal interessante para compartilhar. Como uma gravadora independente de nicho, a Mills Records trabalha com gêneros como o choro, o samba tradicional, o frevo, o maracatu, a mpb, a bossa nova e tem muitas faixas instrumentais. Hoje o nosso faturamento vem 70% de fora do Brasil. Individualmente, o Brasil ainda é o território onde há mais consumo, 30%. Mas a soma do consumo dos demais territórios atinge conjuntamente 70%. Com certeza isso só foi possível em razão desta revolução digital, onde as barreiras de acesso ao mercado internacional caem drasticamente. Se não fosse pela consolidação das plataformas digitais, que dilui as barreiras geográficas, não alcançaríamos este resultado.