Publicitárias criam projeto para mostrar quão machistas as músicas brasileiras são

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“Aquilo que era mulher”, diz a música de Zeca Pagodinho. A figura em questão, “pra” não  acordar cedo ao seu parceiro, saía da cama na ponta do pé. São tantos exemplos de canções com uma visão ultrapassada ou ainda tendenciosamente machista que faltaria espaço neste texto.

Como é um produto cultural, independente de estilo, as músicas retratam e refletem nossa sociedade. Por isso, engana-se quem pensa que a degradação da imagem feminina, por exemplo, é algo relativo à gênero musical. Ela se espalha por gerações e pelos diferentes tipos de canções existentes.

Para lidar com essa realidade as publicitárias Rossiane Antunez, Nathalia Ehl, Carolina Tod e Lilian Oliveira, se reuniram para tirar do plano das ideias um projeto, o “Música Machista Popular Brasileira”, uma plataforma que mostra quais canções são machistas e os motivos que as levam a serem consideradas dessa forma.

Conversamos com Lilian, uma das criadoras do projeto, para saber um pouco mais a fundo de onde veio, como funciona e para onde vai a campanha. Como bem dito no próprio site, "escute com atenção: o descompasso machista às vezes está só nas entrelinhas". Confira.

- Existiu algum insight para o projeto? Fale um pouco sobre isso.

Antes do MMPB surgir, existia a vontade de fazer um projeto pessoal criativo. Somos um grupo de quatro mulheres publicitárias, e queríamos usar nossa criatividade e habilidades pra criar algo 100% nosso. Sendo assim, juntamos as cabeças e resolvemos criar um projeto feminista, causa que acreditamos e lutamos todos os dias. Essa inquietação ficou mais aguçada com a polêmica da música “Só Surubinha de Leve”, então nos reunimos e resolvemos dar destaque para outras músicas de outros tantos gêneros que também são machistas. A ideia é mostrar pra pessoas como a mulher é retratada de forma bem questionável na nossa música há muito tempo. As letras são sintomáticas de uma sociedade sexista.

- Qual poder tem a música na sua visão?

Em nossa visão a música é um produto cultural extremamente importante porque retrata e reflete a sociedade. Tanto o faz que, no projeto, conseguimos perceber a “evolução” de como a mulher é retratada. Se antes as letras nos descreviam como donas de casa boas ou ruins além de constantemente citar agressão física como punição, hoje, com a liberdade sexual da mulher somos chamadas de “putas” se queremos transar, ou ouvimos ameaças de estupro quando não queremos, por exemplo.

- Quais os objetivos do projeto?

Nosso objetivo principal é causar reflexão, por isso trazemos links de conteúdo na maioria das análises feitas. Temos muitas músicas sobre violência, sobre estupro, sobre abuso emocional. E infelizmente, essas ameaças são reais em nosso dia a dia. Não é à toa que o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.

- Dá para mudar esse ambiente machista? Como?

A conscientização é o primeiro passo. Quando a gente entende que somos regidos por uma sociedade machista, começamos a enxergar as coisas mais claramente. Cabe a cada um de nós provocar um pouco dessa mudança. Nós, envolvidas no projeto, geralmente apontamos quando vemos erros - seja numa campanha publicitária, seja num almoço de domingo com a família. Estamos sempre num trabalho de conscientizar quem está por perto. Mas como dissemos: todos podem fazer sua parte, basta estarem abertos.

- Enxergaram dificuldades na aceitação do público? Pode contar um pouco mais sobre?

Por enquanto nos e-mails só recebemos elogios, agradecimentos e sugestões. Chegamos a dar uma olhada na repercussão em páginas de Facebook e outros sites que publicaram matérias e infelizmente nos deparamos com muitos comentários um tanto quanto ofensivos - mas já sabíamos que isso aconteceria por uma parte do público, em sua maioria homens.

- Quantas músicas fazem parte da lista?

Nesse momento temos um pouco mais de 100 músicas. Nos próximos dias o site será atualizado com outras músicas que estão sendo analisadas, além das sugestões que temos recebido do público.

- Como são feitas as explicações dos motivos que levam as músicas a serem machistas?

As explicações são feitas por nós mesmas todas vindas de vivências e estudos feministas. Pra ter melhor embasamento, também colocamos alguns links de suporte com matérias, vídeos e outros tipos de conteúdo que ajude o leitor a entender nossos argumentos.

Para os próximos passos, Lilian revelou que o site precisa passar por uma reformulação funcional. "Em breve teremos um campo de busca, as músicas serão organizadas por ordem alfabética e também vamos incluir o ano de lançamento das letras", garantiu. 

O que achou da iniciativa? Que tal deixar um comentário contando para a gente?

 

 

 

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