Qual o maior desafio para crescer em um mercado machista?

Nicole Fanti Siniscalchi

Após a semana da mulher, o ADNEWS decidiu que apenas campanhas e listas não iriam mostrar realmente a importância do dia internacional da mulher. Por isso escolhemos as líderes femininas do mercado atual e de amanhã.

Perguntamos para elas que estão batalhando todos os dias e continuam crescendo como excelentes profissionais sobre sua ascensão dentro da sua área e tudo o que elas enfrentaram para conseguir chegar aonde estão agora. A pergunta foi:

“Qual foi seu maior desafio para crescer em um mercado machista?”

Adriana Cacace, diretora geral Brasil e Latam da FLIX Media

“Os desafios foram e são inúmeros. Mudaram de peso a medida que minha carreira progredia. Diria que o principal foi me manter fiel às minhas crenças, construindo meu estilo de liderança, que busca resultados ao mesmo tempo que respeita, valoriza e integra todos do time no processo de criação de soluções. Quebrar os modelos impostos – não reproduzindo os comportamentos e estilos de gestão construídos por muitos anos em universos essencialmente masculinos – foi desafiador para as mulheres da minha geração. Só tínhamos como referência nós mesmas e algumas poucas mulheres mais velhas que se recusavam a repetir o estereótipo e construíram empresas e marcas sólidas e, não à toa, marcadas pela participação do time.”

Crédito da foto: Globo/Marcos Rosa

Manzar Feres, diretora de Negócios Integrados em Publicidade da Globo

Como primeira resposta eu diria: ser resiliente. Apesar das mudanças significativas que o mercado de trabalho vem sofrendo nos últimos anos, onde se vê muitas mulheres assumindo o protagonismo em diversas empresas do cenário econômico e tecnológico brasileiro, ainda é um grande desafio chegar no topo desse processo. Por isso, a resiliência ainda é tão urgente. Resiliência para conquistar o nosso espaço, acompanhar as mudanças e superar a cada dia o preconceito que ainda permeia o mercado de trabalho, em qualquer posição ou cargo ocupado. Para além dessa premissa, as mulheres cultivam um olhar estratégico, amplo e plural, mas que também precisa vir acompanhado de uma reflexão sobre aceitarmos o erro como parte da nossa formação profissional. Falhar é um risco do nosso processo de crescimento, que não nos diminui em nada. Pelo contrário, é um convite para ampliarmos a nossa criatividade e potencial para colocar soluções em prática. Nesse sentido, nutrir a autoestima profissional é um exercício diário e a única maneira de enfrentarmos os desafios que nos cercam. Ainda temos um longo caminho para conquistarmos a igualdade de gênero no mercado de trabalho, mas tenho orgulho em saber que estamos pavimentando uma brilhante trajetória para as futuras gerações de mulheres que vão liderar diversos players do mercado.

Larissa Frias, diretora de Data & Analytics da Nestlé Brasil

“Frases como ‘Vai lá obter a aprovação do relatório com o cliente porque ele te acha bonitinha’, ‘Ela não tem perfil para essa área’, ‘Você é ainda muito novinha, um dia vai entender o que estou falando’ e cantadas de colegas de trabalho marcaram a minha carreira. Por ser mulher e ter uma carreira acelerada, houve muitos momentos como esses, porém nunca me coloquei na posição de vítima, usei todos esses inputs e gatilhos como motivação para me tornar uma profissional melhor. Entendi que eu era a única dona da minha carreira, tracei estratégias e caminhos para chegar aonde desejo. O segredo é se conhecer e ter clareza sobre aonde quer chegar na carreira, estudar e sempre se atualizar, se apoiar em pessoas que façam o mesmo por você e se espelhar em líderes que te inspirem. Hoje, na Nestlé, tenho tudo que lutei, sou muito respeitada por todos, sou valorizada pela profissional que me tornei, independentemente do meu gênero. E lembrem-se: a palavra profissional não tem gênero, é para todas e todos, basta querer e lutar por isso.”

Laura Aguiar, Mestre-Cervejeira e Head de Conhecimento e Cultura Cervejeira da Ambev

“Eu não elencaria apenas um grande desafio, pois acredito muito mais na existência de uma série de obstáculos diários que nós, mulheres, temos de enfrentar para sobrevivermos ao mercado de trabalho. Especialmente no setor cervejeiro, do qual faço parte, são esses constantes desafios para mulher, os responsáveis por consolidar um setor machista, e que, ainda hoje, reflete diretamente nas profissionais da área. Eu tenho plena convicção do quanto as mulheres têm se fortalecido no segmento, principalmente por hoje termos maiores espaços para debater equidade de gênero e inclusão, mas ainda assim a profissão da cervejeira é invisibilizada. Ao contrário disso, essa é uma função extremamente importante e necessária para o negócio, que independe de gênero. Tenho muito orgulho de fazer parte de um time composto por 50% de profissionais cervejeiras na Ambev e de liderar uma equipe majoritariamente feminina, tendo a chance de empoderar e inspirar outras especialistas e apreciadoras, quando ainda faltam reconhecimento e referências atualizadas a nós no mercado. Foi pensando exatamente nisso que lançamos, neste mês, o movimento #CervejeiraSOUEU, para reconhecer a profissão e ressignificar o termo nos buscadores de internet”

 Fernanda Gama, Gerente de Dove no Brasil

Felizmente, na minha carreira recente não vivenciei nenhuma experiência machista na área de marketing. No entanto, no início da minha trajetória profissional trabalhei na área de vendas de outra grande empresa de bens de consumo – uma área predominantemente dominada por homens e vivi o preconceito sob a forma de questionarem minha presença naquele ambiente e o quanto eu seria capaz de entregar aquele desafio. Naquele momento, não entendia de onde vinha o questionamento e foquei meus esforços em me preparar para entregar as demandas que estavam sendo pedidas. Não dei importância para a discriminação, entreguei o projeto e, depois de um tempo, percebi que os mesmos olhares questionadores tinham se tornado meus aliados e minha colaboração na área, prevista para se encerrar em um ano, se estendeu por mais tempo. O aprendizado que eu tive é que nós mulheres, quando questionadas, devemos nos manter firmes e acreditarmos no nosso desempenho e no nosso bom trabalho, sem nos deixar contaminar pelo ambiente. Acreditarmos em nosso potencial é a melhor resposta para quem nos questiona.

Priscila Marins, Diretora de Mídia e Marketplace da Enext

“Provar constantemente que somos capazes. E além disso, na minha visão, temos um grande desafio com nós mesmas. De termos em mente de forma clara nossos objetivos de carreira, de nos prepararmos e aceitarmos a nossa própria vulnerabilidade. Ousarmos. Sendo assim, não tenha medo dos desafios que irão aparecer ao longa da nossa jornada. Invista tempo e energia no que realmente vale a pena para você. E os resultados irão aparecer. Se não aparecerem, talvez você esteja no lugar errado.”

Verônica Antunes, Head de Marketing da Ramper

“O maior desafio é aturar o assédio embalado como uma brincadeirinha por parte de uma parcela de homens. Quando somos assediadas dessa forma nós percebemos a intenção do assediador, mas como é algo normalizado na sociedade ninguém acha tão grave e, por isso, precisamos ter muita inteligência emocional para lidar com a situação, principalmente em relações transacionais. Por exemplo, uma vendedora de loja recebe uma cantada de um cliente. Ela tem interesse em seguir aquela venda, pois este é o trabalho dela, mas ao receber uma “cantada inocente”, ela precisa decidir como se posicionar sobre aquele assédio que recebeu. Infelizmente, muitas vezes nós temos receio de como seremos interpretadas e como será a reação das pessoas e, por isso, escolhemos ignorar esses assédios, pois se nos posicionarmos ainda corremos o risco de sairmos como a “errada” na situação. É uma triste realidade que a maioria das mulheres vive diariamente na área de marketing. Seria muito mais simples se apenas pudéssemos fazer nosso trabalho, sem constantemente precisarmos tomar a decisão de nos defender contra assediadores e pensar como seremos interpretadas por nossa reação de defesa.”

Luciana Ogata, Líder de Atendimento da Prime Arte

“Hoje o mercado se adaptou muito às mulheres em cargos de liderança, mas com certeza o caminho trilhado por uma mulher ainda é muito maior e com muito mais provas do que o caminho de um homem. Isso sem falar na jornada dupla com casa, filhos e marido. Isso é um fato que massacra as mulheres. O preconceito se traveste toda vez que uma mulher fica nervosa ou precisa se impor e é negligenciada ou relacionada como se estivesse com TPM, ou de mau humor porque brigou com o marido. Esses discursos não devem ser tolerados. É importante mostrar que não podemos mais perpetuar narrativas e comportamentos misóginos. Muitas mulheres são encorajadas a pensar de forma masculina e às vezes mais racional. Mas o carinho, a intuição e a sensibilidade é o que tornam as mulheres grandes líderes. Ainda temos muito a fazer para trazer equidade para o meio profissional, tornar obrigatória a presença feminina em todas os ciclos da empresa, da assistente  a diretora é fundamental, para tornar o mercado mais justo e plural.”

Juliana Glezer, gerente de Inovação e Portfólio na Nestlé Brasil

“Minha carreira tem se desenvolvido bem e me sinto respeitada na Nestlé. Mas externamente, em alguns encontros, já sofri preconceito ou desconfiança por acharem que eu não era capaz por ser mulher. Algumas vezes, entrei em reuniões externas que me perguntaram: ‘cadê seu chefe’? Eu me sinto privilegiada porque a Nestlé tem abertura para discutir essas questões. Faço parte do grupo de diversidade de mulheres da companhia, que discute temas que são mais relevantes para as carreiras das mulheres e sobre como podemos colocar essas soluções em prática.”

Daniela Cachich, vice-presidente de Marketing da PepsiCo Alimentos no Brasil

“A trajetória de uma mulher dentro do mercado de trabalho e em grandes empresas pode ter um enorme impacto positivo na sociedade, nas companhias e no futuro de outras que desejam traçar um caminho semelhante. A jornada é árdua e, ao mesmo tempo, cheia de recompensas e orgulho. Na minha carreira, mesmo sendo uma mulher branca e tendo privilégios, tive que ultrapassar barreiras, derrubar mitos e ainda hoje continuo nessa batalha, sempre com o objetivo de fomentar o protagonismo às minorias, ou às maiorias minorizadas – afinal qual a lógica de classificar 56% de negros como minorias e 52% de mulheres como a diversidade da população? – e assim inspirar outras mulheres a acreditarem que elas também podem chegar onde quiserem.

Tive a experiência de trabalhar na indústria cervejeira, que fez com que eu questionasse a maneira como as mulheres eram retratadas nas campanhas de comunicação deste segmento, que por anos objetificou a mulher.

Desta forma, me desafiei e também à minha equipe a propor uma nova perspectiva para as campanhas da companhia, desafiando o status quo. Então, passei a levar como propósito de vida tentar ser o mais transformadora possível na profissão em que decidi atuar. E sigo com esse propósito até hoje.  

Agora, na PepsiCo, temos um forte comprometimento com o marketing de propósito.  eQlibri®️, por exemplo, é a marca que traduz a nossa proposta de valorização e reconhecimento da força das mulheres. A marca atua há anos em prol do protagonismo feminino e neste mês, inclusive, estamos com a ação #MeGostoSemDesculpa, na qual convidamos as mulheres a tiraram a culpa de suas cabeças e as desculpas de suas falas. Afinal, quantas vezes todas nós já não pedimos desculpas sem motivos? Durante todo o mês, propomos ativações que exploram o tema da autoaceitação, gerando este debate tão importante na sociedade.

Isso tudo, trazer esse propósito de fato para as nossas campanhas e diálogos, só é possível porque a Diversidade e a Inclusão são valores genuínos da PepsiCo como um todo. E estar em um lugar assim, me traz a certeza de que eu posso ocupar o lugar que ocupo hoje com responsabilidade e servindo como espelho para que outras meninas e mulheres vejam que o lugar da mulher é onde ela quiser, e que ela pode chegar onde o seu sonho permitir. Aqui na PepsiCo, eu olho para os lados e vejo mulheres em todas as funções e áreas – inclusive no comitê diretivo, que conta com 54% de representatividade feminina.”

Giuliana Cogo, gerente de marketing da Life Fitness para América Latina

“O maior desafio para crescer em um mercado machista, é lidar com a questão social. Assim como grande parte das mulheres no mercado de trabalho sofre, já tive salário inferior exercendo a mesma função que outro homem, já aumentaram o tom de voz para mim, entre outros percalços que são corriqueiros em uma sociedade estruturalmente machista. Mas eu acredito que a minha história de vida, incluindo a maneira como a minha mãe me criou, me ajudou a manter lucidez e autoconfiança para enfrentar esses desafios. 

Além disso, eu percebo que o mercado fitness conta com uma presença masculina maior. Há muitos mais homens donos de academia comparado à mulheres, por exemplo. E claro, esta percepção não se limita somente a este mercado, em eventos, já me vi liderando 20 homens sendo a única mulher. Lembro que quando virei coordenadora, eu achava que usar salto alto me deixaria com mais credibilidade ao invés do tênis e ninguém havia me pedido, mas eu culturalmente tinha essa ideia. Hoje me sinto muito à vontade no ambiente em que trabalho e não é o salto alto que diz sobre minha capacidade. Já são 20 anos na Life Fitness e agradeço muito a gestão que prega por um ambiente igualitário. Temos mulheres em cargos de liderança na mesma proporção que homens, isso me deixa muito feliz e honrada”

Renata Simões, diretora de conteúdo criativo na iStock e Getty Images Latam

“Confiança. Tenha confiança em tudo o que fizer em sua função, seja fotografia, publicidade, comunicação etc. Lembre-se sempre: você foi contratado por um motivo, tem o conjunto de habilidades e deve se sentir capacitado para cumprir suas responsabilidades.
A empresa em que trabalho está sempre fazendo esforços para mudar a maneira como as mulheres e outras comunidades anteriormente sub-representadas são representadas em nossos produtos – imagens, vídeos, vetores e ilustrações – mas também em nossas relações como líderes com agência e autoridade. Trabalhar em uma empresa como esta me ajudou a entender o valor do meu trabalho e como, independentemente de ser homem ou mulher, todos têm o direito de expressar suas ideias e serem respeitados igualmente “

Helena Isaac, diretora de marketing de Skol

Comparado aos homens, as mulheres tendem a trabalhar muito mais para conquistar espaços e ascender. Acredito que o maior desafio ainda seja a necessidade de provar competência e capacidade. Para superar essa barreira, diálogo e incentivo são necessários, principalmente entre lideranças. É importante gerar debates positivos, porque é a partir disso que vamos conseguir atuar trazendo formatos construtivos que impactem positivamente na carreira das mulheres, tornando o mercado cada vez mais diverso, plural e com equidade de oportunidades.

Silvana Saleme Diaz, gerente de fábrica na Nestlé Brasil

“Acredito que os desafios sejam os mesmos para todas as mulheres. As soluções variam um pouco. O difícil mesmo é quando a solução falha. Meu caso, por exemplo, eu mudo de cidade com alguma frequência. Então estou, de uma certa maneira, sempre recomeçando ou, melhor dizendo, dando continuidade em um lugar diferente. Eu sou casada e tenho dois filhos. Meu marido me ajuda muito. Resumindo, eu preciso sempre criar a minha rede de apoio.”

Isis Vasques, diretora executiva da Agência Ecco

“É provar a sua competência profissional diariamente em tudo que irá fazer. As mulheres ainda são vistas como frágeis, e, imagino que por isso, muitas vezes, acabam não alcançando cargos superiores de liderança, pelo receio de não serem “fortes” o suficiente. Além do preconceito com as mulheres que já são mães. Algumas empresas ainda relacionam isso à falta de dedicação se ela tiver filhos, “justificando” que ela irá faltar muito ou será menos produtiva.”

Iafa Britz, sócia-diretora da Migdal Filmes, produtora de longas como “Minha Mãe é Uma Peça”, “Nosso Lar”, “Irmã Dulce”, “M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, além de séries para TV, como “Matches”, para o grupo Turner

“Desafio? A verdade é que, como empreendedora e executiva, nunca me senti diminuída ou ameaçada por ser mulher num ambiente majoritariamente masculino. Hoje, olhando para trás, percebo que sim, houve momentos, piadas… um jeito de ser tratada como se eu fosse “café com leite”. Mas só tomei consciência disso nos últimos anos. A partir desse movimento de mulheres de gerações posteriores à minha, das mais jovens.

Em família, fui criada num ambiente que valoriza o trabalho e a independência financeira. Isso se manifestou na minha vida profissional como algo indubitável, inquebrantável. Eu não duvidei de mim porque acho que na minha casa ninguém duvidava. Falavam que eu era meu pai de saias. O que me irritava muito, porque eu dizia que eu era Eu de saias, de calças, de chinelo, de salto. Mas entendo que este falar era uma forma de mostrar que não havia barreiras de gêneros na minha casa. Tenho muita gratidão por ter sido criada num ambiente que me valorizava e me estimulava. Foi fundamental para me trazer firmeza e segurança para enfrentar a posição “café com leite” que achavam que me impunham, mas que eu nunca assumi como minha”.

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