O jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem alertando: não acreditem no “hype” da inteligência artificial. Boa parte do que se divulga na mídia sobre a tecnologia não passa de publicidade das próprias empresas.

Para esclarecer as coisas, o termo “Inteligência Artificial” (I.A.) tem um duplo significado atualmente. Por um lado, I.A. representa uma área científica e acadêmica muito avançada da Ciência da Computação, envolvendo um grande número de cientistas em diversas disciplinas. Seu objetivo é investigar a possibilidade de reproduzir artificialmente aspectos da mente humana, como a capacidade de tomar decisões de modo autônomo, formular hipóteses e antecipar resultados a partir da experiência e dados disponíveis. As pesquisas acadêmicas sobre I.A. são rigorosas e cuidadosas, como determina o rigor científico em uma área nova de conhecimento.

Por outro lado, existe a “Inteligência Artificial™” — um “nome fantasia” usado por várias empresas de tecnologia em contexto quase puramente publicitário. Essa “I.A.™” é muito mais “storytelling” do que tecnologia.

O problema é que os sistemas de I.A.™ que estão sendo propagados pelas gigantes de tecnologia como Google, Facebook e companhia (com auxílio essencial de boa parte da imprensa) terão imenso impacto sobre a vida de bilhões de pessoas no mundo. As empresas argumentam que “salvo um ou outro defeito” (catastrófico) a I.A. será positiva para a humanidade. As corporações dizem ainda que o progresso é inevitável, mas as pessoas não precisam se preocupar porque as empresas levam a ética muito a sério.

Boa parte das afirmações corporativas sobre as maravilhas da I.A.™ não passa de promessas vazias e muita enrolação. E as pessoas acreditam nessas afirmações sem substância porque elas são continuamente badaladas pela mídia tradicional.

E isso é gravíssimo, como confirma uma investigação abrangente realizada pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford. O instituto avaliou justamente como a mídia britânica tem tratado o tema inteligência artificial. Os pesquisadores checaram 760 artigos sobre o assunto publicados nos primeiros oito meses de 2018 em seis grandes empresas jornalísticas do Reino Unido: The Telegraph, Mail Online (e o Daily Mail), The Guardian, HuffPost, a rede BBC e a edição inglesa da revista Wired.

A conclusão do estudo é que a cobertura da mídia sobre inteligência artificial é dominada pela própria indústria. Quase 60% dos artigos destacavam novos produtos, iniciativas e serviços supostamente relacionados com inteligência artificial. Um terço desses artigos usavam fontes das próprias empresas, e 12%

mencionavam especificamente o bilionário Elon Musk, dono da automotiva Tesla e da empresa aeroespacial SpaceX.

Os pesquisadores do Reuters Intitute concluíram que os artigos sobre I.A. na mídia britânica não são críticos, apresentando os produtos e serviços como soluções eficientes para vários problemas. Os jornalistas raramente questionam se a I.A. seria a melhor solução para os problemas, e não mencionam as polêmicas sobre os efeitos da tecnologia para a população.

A pesquisa alerta para uma mídia que age como relações-públicas de corporações multibilionárias e apresenta a I.A.™ como uma panaceia para muitos problemas, sem levar em conta os impactos negativos dessas tecnologias. Além disso, a I.A. é definida como produtos e serviços privados, onde a preocupação e opinião do público não são levados em consideração.

Segundo os pesquisadores, é preocupante que na maioria dos artigos não haja menção aos riscos e desafios que serão causados pela I.A. na vida das pessoas, envolvendo direitos fundamentais e a aplicação da lei. As empresas querem empurrar ao público sua visão proprietária da tecnologia (por isso a brincadeira “I.A.™” neste texto), e contam com a complacência da imprensa para atingir essa meta. Os pesquisadores de Oxford dizem que a estratégia das corporações está funcionando e que o jornalismo tradicional está servindo como acessório deste objetivo. Se não houver uma ação incisiva e imediata para controlar essa difusão de publicidade, poderá ser tarde demais para evitar grandes dores de cabeça no futuro.

Paul Nemitz, conselheiro de Ética da Comissão Europeia, diz que as pessoas não podem ser enganadas dessa forma pelas empresas. Há muitas questões éticas envolvendo o desenvolvimento e lançamento de novas tecnologias, mas no final é a lei e não a ética que deveria estabelecer as normas. Da mesma forma que um arquiteto precisa seguir rigorosamente as normas de construção ao projetar uma casa, as empresas de tecnologia deveriam agir sob regras estritas para que seus produtos não prejudiquem a democracia e os direitos fundamentais dos cidadãos, disse Nemitz.

Sergio Kulpas, janeiro de 2019

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