A internet é um fogão e o Youtube é a parte de cima. Os canais são as bocas, representadas por panelas. Cada panela tem certa quantidade de líquido fervente, que são os vídeos. Vez ou outra, o líquido transborda e molha o resto da internet. Foi o que aconteceu com o Youtuber Logan Paul, que foi duramente criticado após divulgar imagens de uma pessoa morta durante uma viagem pelo Japão. Logan mostrou as cenas enquanto passeava pela floresta de Aokigahara, conhecida como a floresta dos suicídios. Após dar gargalhadas ao lado do cadáver, a repercussão foi tamanha que o leite da panela de Logan Paul transbordou e molhou a internet. E é aqui que a analogia realmente fica maluca: depois de molhado, o fogão não seca nunca mais.

Parte da internet é o Veja Multiuso e tenta limpar Logan Paul do fogão. Sem sucesso, já que após o ocorrido, novos uploads do mesmo vídeo faziam sucesso e entravam, novamente, entre os mais vistos do Youtube. Diferentes panelas transbordavam fazendo vídeos sobre o assunto e os leites se misturavam no fogão, criando uma bela bagunça. Se você clicasse no “Em Alta” no auge da confusão, dezenas de vídeos seriam sobre o tema. Vários dos grandes canais brasileiros falaram sobre o fail de Logan.

Foi lamentável. Foi triste. Foi desanimador. Mas o mais maluco disso tudo são as panelas que não transbordam.

Sim, pois soubemos do caso de Logan Paul porque o leite nos molhou. Saiu aqui no AdNews, no G1, no UOL, entre outros. O Youtuber tirou o vídeo do ar porque pessoas que não o seguiam começaram a reclamar. Sabe quantos assinantes ele perdeu em números brutos? Nenhum.

E a galera dos desafios? Faz uma busca no seu Youtube com a palavra “desafio” e dá uma olhada nos resultados. Aliás, vai lá no “Em Alta” de novo e dá uma sacada nos vídeos com conteúdos terríveis que estão entre os mais vistos da plataforma de vídeos da Google. A audiência desses canais não se incomoda com o conteúdo. Eles gostam.

A Biblioteca de Alexandria na ponta dos dedos e as pessoas querem ver o que acontece quando um iPhone é colocado no micro-ondas. “Mas o público é livre para escolher seu conteúdo”. Concordo, mas será que o público sabe o que quer? Num contexto mais marketeiro, Steve Jobs costumava dizer que “as pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas.” Será que tal máxima não vale também para a comunicação?

Analisemos a ferramenta “Em Alta” (Trending) do Youtube, por exemplo. Aparentemente, é a principal peça de curadoria oferecida pela plataforma da Google para vermos quais vídeos estão bombando. Sabia que ela mostrou o vídeo do Logan Paul? Por quê? Não faço ideia, já que isso vai contra as regras do próprio site. Há algo errado no Reino da Gigante das Buscas.

“Mas as leituras mais populares nos sites de notícias também são lamentáveis”. Concordo, por isso mesmo não digo que a culpa seja do criador de conteúdo. A audiência decide o que vai ver/ler. Mas e se os curadores desse conteúdo se prestassem a organizar melhor? Teoricamente, eles estudaram para julgar o que irá contribuir para uma sociedade mais sensata e justa. E não falo da pretensa teoria do Gatekeeper, mas talvez de um “gate” mais social, pensado junto ao público.

Pois os views e os cliques não devem ser os únicos medidores de sucesso. É preciso ir além e tentar dar ao público algo consistente e edificante. Caso contrário, o futuro da comunicação de qualidade estará nas mãos de alguns, enquanto para outros sobrarão cadáveres na floresta.

Leonardo Araujo é jornalista especializado em marketing e mídias sociais. Trabalha com mídias sociais há quase 10 anos. Ao longo de sua carreira, atendeu empresas brasileiras, alemãs, americanas e chinesas, além de nomes famosos da política brasileira. Como repórter, cobriu festivais como Cannes e El Ojo. Entrevistou nomes históricos do mundo da propaganda, como David Droga, John Hegarty e Dan Wieden. Atualmente é Gerente de Conteúdo e Mídias Sociais do Grupo Image.

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